Textos

16 de março de 2014

O que é mesmo o brincar infantil?

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O que é mesmo o brincar infantil? O brincar é um impulso da criança, pura expressão que corre como um rio e nós adultos somos as margens que servem de sustento para essa corredeira. O brincar é como uma força da natureza, como as águas do rio, para as quais não podemos ensinar nada, pois elas correm por si.

Damo-nos conta que as crianças em muitos lugares não têm mais o direito de brincar pelo simples prazer da brincadeira. Parece que tudo o que está relacionado com o brincar precisa render conhecimento imediato. Os adultos idealizam que os brinquedos têm que ser pedagógicos. Já se perdeu o bom senso do que é ser criança, da necessidade que ela tem e dos processos infantis necessários para o seu desenvolvimento. No mundo infantil não deveria caber a palavra “pressa”. Leva-se tempo para crescer, para construir um corpo saudável que sirva de base física para todo um desenvolvimento anímico espiritual posterior. Para isso temos a infância, que deveria ser permeada pelo brincar – correr, balançar, pular corda; desenhar livremente; pela natureza – terra-água-areia; por atividades caseiras para a criança imitar, por um ritmo saudável – bom sono, boa alimentação; espaços amplos, etc.. O que vemos hoje, são muitos pais e mães brincando com seus filhos no sentido de direcionar o seu brincar, sem deixar que ele surja espontaneamente, porque os seus filhos já não sabem mais como brincar. Esta é uma capacidade que está se perdendo, pois o meio social deixa a criança muitas vezes isolada de outras crianças, ou sem ter os adultos fazendo algo que possa ser imitado por ela, como por exemplo, um adulto fazendo um trabalho caseiro, limpando um carro, lavando uma roupa, cozinhando, arrumando algo na casa, serviço de marcenaria, cuidando de um jardim, afazeres úteis e com significado para a criança.

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O que se vê em contrapartida são brincadeiras agressivas, violentas, tiros, chutes e gritos, que brotam de imagens vivenciadas na frente da televisão ou jogos eletrônicos.

Somente no brincar a individualidade da criança é misteriosamente visível, quando ela “ensaia” de modo lúdico – brinca, atua, cria, se relaciona, constrói, experimenta, refaz – tudo o que depois será requisitado quando adulto. Isto é, se mostrar firmemente situado na vida e tomando decisões responsáveis. Por isto o brincar na infância fundamenta como nos direcionaremos ativamente e mentalmente em relação à vida, quando adultos.

Partindo deste panorama, como podemos resgatar esta atividade tão vital para a criança? Como podemos ser facilitadores deste brincar? Certamente é um caminho de aprendizagem.

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O que ajuda a criança a entrar no âmbito da imaginação é se os pais/educadores acessarem suas próprias forças imaginativas e lúdicas. Contando contos, histórias infantis sem pedir que a criança elabore um julgamento ou comente a história. Participando daquele momento ouvindo o conto e simplesmente entrando nas imagens, sem indicações ou interferências do adulto. Os pais deveriam contar contos pelo prazer de contar e viver os contos junto com as crianças.

Deste modo se possibilita momentos de criação mágicos onde “o tempo para” e as crianças se sentem encorajadas a brincar a partir da profundeza de suas almas, das lindas imagens dos contos.

Em algumas ocasiões os adultos poderão testemunhar que a criança está ativa no brincar como se estivesse em um  diferente estado de consciência. Podemos pensar: “O que a criança está fazendo?”. É bom observar a criança brincando, ouvir e entender que o brincar é importante e tem em si a possibilidade de cura, de alimentar e fundamentar a saúde para toda uma vida.

O brincar não direcionado é chamado de “brincar autêntico” e é caracterizado por:

  • Liberdade de metas a serem alcançadas;
  • Sentimento de “o tempo está parado”;
  • Devoção e concentração;
  • Atenção e identificação com a ação realizada;
  • Fluidez, movimento e transformação;
  • Profunda satisfação ao terminar um brincar.

Os diferentes tipos de brincar são observáveis na criança pequena e podem ser vistos como cada uma tem uma afinidade conforme as qualidades desenvolvidas por cada criança. Há brincadeiras que se relacionam mais com as imagens internas que ela traz, há brincadeiras que expressam o interesse da criança em criar algo novo, ou também imitar algo vivenciado por ela, trazendo imagens externas.

Podemos assumir que a presença de todos os elementos no brincar indica equilíbrio no desenvolvimento da criança. Entretanto, ao estudar estes diferentes tipos de brincar a pessoa descobrirá que há preferências e inclinações da criança em relação a um ou outro brincar e esta “unilateralidade” pode ser a chave para entendermos as diferenças individuais entre as crianças.

O brincar saudável engloba vários aspectos. A criança está atenta e focada, é capaz de perseverar com relação ao que lhe interessa, é curiosa, explora e traz novos temas para o brincar. É vivaz, energética, é capaz de tolerar frustrações leves, respira normalmente, às vezes profundamente, fala de modo relaxado, mostra sinais de satisfação no brincar. Move-se num fluxo continuo de ações, brinca  incluindo os outros amiguinhos, zela por seus colegas,etc..

Não podemos fazer uma criança brincar quando ela não quer, pois o brincar é um ato relacionado à vontade e cada um é dono de sua vontade e faz com ela o que quer. Como então podemos ajudar neste processo? Não sermos tão sérios com relação à vida, devemos ter mais leveza em  nosso ser, nas relações e ações cotidianas.

Como repetir uma tarefa que fazemos diariamente, mas de um modo diferente, que nos empolgue sempre de novo? Isso como exemplo para que a criança possa imitar e levar para o seu brincar. Sugerimos praticar as artes, pois estimula a criatividade.

Como está o ambiente da criança onde ela brinca? Tem espaço para ela? Ela é incluída nos afazeres diários de uma casa. Ela vê o adulto ao seu redor trabalhando em tarefas úteis e com sentido? Que tipo de brinquedos ela tem contato? Há brinquedos de várias texturas, ou seu mundo está envolto em plástico? Seus bonecos e bonecas são aprazíveis para serem segurados e lidados com carinho? Seu filho vê muitas horas de TV por dia? Quem o acompanha nesta atividade?  Você tem certeza de que o que  ele vê é adequado? A criança escuta histórias contadas por um adulto? Existe um ambiente de veneração ao redor da criança? O adulto ao redor consegue poupar a criança de conversas de adultos, de idas frequentes a shoppings ou supermercados? Você caminha com seu filho, na rua ou na natureza? Ela tem espaço para realizar movimentos amplos? Ela tem desafios ou é poupado do perigo o tempo todo? Desafios de conseguir pular corda, andar de perna de pau, subir numa árvore, etc.?

A criança precisa de muito pouco para brincar. Engana-se o adulto que compra com frequência um novo brinquedo ao seu filho/a achando que assim está facilitando o brincar.

Não queremos de modo algum isolar a criança do mundo, mas sim dar a ela o que lhe cabe. Poder digerir aquilo que é da fase em que se encontra, lembrando que cada momento de nossa vida exige uma maturidade.

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É aconselhável ter em casa vários panos de diversos tamanhos, bonecos simples, troncos, cestos, conchas, pinhas, cavaletes, cadeiras que a partir delas cabanas possam ser construídas, potes, colheres de pau, cordas, areia, água, carriolas, etc. Material simples e o resto fica por conta da criança.

Deste modo encerro este texto  onde foi trazido à  consciência as diferentes dimensões do brincar, buscando assegurar às crianças um direito que lhe pertence: o de ser criança por inteiro!

 

Fonte: Federação das Escolas Waldorf no Brasil

Texto elaborado pela professora de jardim de infância Waldorf Silvia Jensen,  baseado no Congresso de Pedagogia Waldorf em Boston/USA em julho de 2008 em parceria com a professora de jardim de infância Waldorf Maria Chantal Amarante.